2.4.18

re-vi-ver

com j.

"reviver" é um verbo
intransitivo e transitivo
direto e indireto
revivo
revivo a.
revivo f.
revivo com j.
revivo:
o olhar perdido que de repente
me encontra e vê
me vê
"ver" é um verbo
transitivo e intransitivo
ele nasce
ele vê
o quê?
seu olhar perdido
de repente me vê
esse ser mínimo
de repente me vê
e eu revivo

29.3.18

recaída

nos últimos dias voltei às listas
listas ingênuas
de livros pra ler
compras a fazer
nada como as velhas listas
metódicas
abrangentes
um amigo me diz que tudo bem
que eu posso me permitir
essa demonstração
de ansiedade
outro me diz
mudando de assunto
que as coisas estão
mesmo
muito tristes
embora eu não tenha falado
de tristeza
mas de listas
e a essa altura
já estamos falando de outra coisa
a criança morta
a vereadora morta
o amigo morto
fazemos listas
recaímos juntos
até que mudamos de assunto
e ele diz uma coisa gentil
e me manda um coração
que pulsa
na mensagem de whatsapp


19.3.18

os dias

não falar de marielle
não falar do victor

falar do victor
falar de marielle

12.3.18

com v.h.

desde que soube
da morte dele
fiquei com um afã
de saber
comecei a falar
com as flores
com os bichos
perguntei para o gato
abracei meus meninos
querendo saber
porque eu soube
sem realmente
saber

o mistério cresceu

comecei a falar
com os mortos
com meus avós
com os avós dos outros
com os pais das minhas amigas
que são meus mortos
conhecidos

falei também
com alguns mortos
alheios

de noite eu mesma
me fingi de morta
como sempre
mas agora
querendo saber

fiquei com esse afã
de saber
de resolver o mistério
de entender o universo
de falar com os peixes
com as samambaias
com as estrelas

também falo com você
continuo uma conversa
incompleta
sussurro pra você
minha teoria
dos "momentos felizes"
e te pergunto por que será
que as orquídeas
gostam tanto do ar
poluído de são paulo

continuo sem saber






17.2.18



troquei sua foto
do porta-retrato
por um papel
vermelho
até agora
tudo bem




9.2.18

nunca fomos tão
felizes
sou levada a essa frase
que também conta com
uma boa disposição
da língua
nunca fomos tão felizes
você já se perguntou
o que isso quer dizer?
é nosso segredo
eu sei
nosso calcanhar de aquiles
nossa invenção da pólvora
da roda
nunca fomos
tão
felizes
não vou revelar nada
aqui
não vou entregar
nosso ouro
nossa fonte
mas essa frase nos
contém
nos abraça
tão forte que chega
a doer

7.2.18

quero sair
desta mudança
e entrar num
livro

2.2.18

tenho medo de matar
as plantas
construí pra elas um pequeno deck
do lado da janela
mas talvez o sol 
não seja suficiente aqui
explico pra elas que a palavra
“mudança”
em português
tem um sentido duplo
concreto e metafórico 
que roland barthes diria
que isso é uma sorte
uma “boa disposição”
essa mesma que nós
elas e eu
devemos ter 
os meninos sobreviverão 
o gato sobreviverá 
mas elas
elas precisam me ajudar

25.1.18

caravana

tudo é meio
lugar-comum
não ouvir mais
chico buarque
ou chorar ouvindo
ou pensar que ele
nos representa
porque fala de amor
e de política

tudo é meio
lugar-comum
então também
acho graça
me sentindo
um pouco vingada
quando os meninos
entoam "sol, a culpa
deve ser do sol"

22.1.18

fim de festa

f. não se conforma que
a festa acabou
as pessoas não deveriam
ir embora
elas poderiam até sair
viajar
fazer outras coisas
mas elas deveriam voltar
as festas deveriam ser
infinitas

30.12.17

réveillon

terminar o ano
catando piolhos
meu irmão diz que são
coisa de gente suja
meus meninos não são
sujos demais
também não são
dos mais limpos
os piolhos gostam mais de a.
e é em sua cabeleira que invisto
as energias que sobraram
deste 2017
que me custa adjetivar
talvez por falta de coragem
digo "confuso"
digo "difícil"
digo "duro"
digo "longo"
terminar o ano
catando piolhos
que não estão
nem aí
para o meu calendário

22.12.17

no rio

ontem
depois de meses
sem terrores noturnos
acordei meus pais
aos berros
perguntando
se eles tinham
certeza
de que eu estava
viva

12.12.17

12 anos

às vezes
agora
quando falo
algo para a.
tenho a sensação
de que vai ficar

ele me escuta
em silêncio
sentado no banco
do carona
e eu ouço
as palavras
saindo
da minha boca
coloco a mão
sobre a dele
e vamos assim
por um tempo
outras vezes
as palavras
saem
mais soltas
pergunto se ele
já tomou banho
fez a lição
escovou os dentes
ele responde
“talvez”
e eu digo
que “talvez”
não é resposta
ele acha engraçado
e diz que é
resposta
sim

10.12.17

fim de semestre

pergunto pra ela
aonde vai com sua mala
depois da aula
e ela me responde
o que eu já sabia:
"pra casa"




2.12.17

este corpo não é meu

(parte 3)

a professora
de anti-ginástica
usa a palavra
xoxota

25.11.17

posso comparar o amor
a um concerto a 4 mãos
que assisti
sem você?

posso comparar o amor
àquelas mãos
tocando shubert
se aproximando
se distanciando
mais rápido, mais lento
as mãos e os troncos
se desviando, pra frente
e pra trás, no mesmo ritmo
mas desencontrados?

posso comparar o amor
a um concerto a 4 mãos
sem falar
de você?

posso comparar o amor
às mãos, pequenas, dela
e alongadas, dele
à gentileza com que ele
espera que ela se sente
e ajeite sua saia de crepe
e levante de novo
e se ajeite mais uma vez
até estar pronta
e sorrir?

posso comparar o amor
à violência com que
ela e ele, alternados
passam as páginas
da partitura
quando a música
já parece andar
sozinha
mais forte
do que eles?

não estou te pedindo
permissão, entende?
eu só estou querendo saber
se eu posso
se sem você
eu posso



10.11.17

este corpo não é meu

(parte 2)

será que você consegue
fazer com que seus dedos
toquem o céu?
será que você consegue
respirar tão profundo
que seus pulmões
colem no chão?
será que você consegue
virar seus joelhos
para que olhem
pela janela?
a professora de anti-ginática
insiste em consultar
a memória dos músculos
eles se fazem de
desentendidos

5.11.17

eles

eles se divertem
dizendo que minhas
viagens são tipo
a fase bônus
do super mario

25.10.17

"vamos colocar isso 
em termos de natação.
é como se na vida eu estivesse 
nadando, nadando, nadando 
enfrentando ondas muito altas
a piscina me salva 
de muitas situações opressoras
tem situações que são 
enlouquecedoras
se a gente sabe nadar 
é só nadar 200, 300 metros 
que aí já não sente mais nada 
não fica triste, não precisa chorar 
é como se tivesse lavado 
o cérebro por dentro"

(nora ronai)

23.10.17

este corpo não é meu

(parte 1)

a.
suas palavras
saiam calmas
mas as pernas
iam rápidas
como um desenho
animado

b.
deixa sua
sobrancelha
descansar
por um
segundo

c.
você parecia
aquela menininha
do “poltergeist”
só que ao
contrário

d.
não aperta
minha mão assim,
mãe

15.10.17

achei que o gato
também estivesse
deprimido
ele passou o dia
todo encolhido
do meu lado
na cama
de noite
me ocorreu
brincar com ele
com a cartela
metálica e colorida
de naldecon
ele ficou
visivelmente
interessado



4.10.17

vocabulário

f. que diz:
este boneco
é mais
realista

28.9.17

tenho gostado de
ir ao cinema sozinha
e de comprar coisas 
pela internet
e de ouvir monólogos
de whatsapp 
uma amiga falou de um
"um movimento sóbrio
sem proteger a pele 
com armadura"
pode ser

11.9.17

anotações


ela me mostra 
o livro de uma amiga
assinado 09-03-70
a amiga já morreu
eu finjo
desinteresse
o livro está todo
anotado
e sublinhado 
com tinta vermelha
e azul 
ela está escrevendo 
sobre autismo
ela me mostra 
o livro 
da amiga que eu 
não conheci
que ela guardou
anotado e sublinhado
para se lembrar
47 anos
depois

(dois dias antes 
quando ela
pede uma caneta
eu vejo o gesto
o livro na mão
a caneta destampada
e quase grito
o livro é meu
ela me olha
e tampa a caneta
calada)


7.9.17

minha amiga toca a real
o apartamento é bonito
pra você
eu fico irritada e digo
mas escuta
e mais nada
porque começo a pensar
na pré-história 
e em como explicar 
pra corretora 
que não é tão 
simples
quantos metros
quantos quartos
quantas vagas na garagem
e o prédio?
tem segurança
24 horas?
e as vagas?
são fixas?
e o preço do condomínio?
que existe uma pré-história 
que eu te perguntei
pra decidir se comprar ou não
te perguntei se você achava
que a gente ia ser feliz aqui
você não respondeu

5.9.17

sabedoria

eu não ligo
muito para o
passado, mãe

1.9.17

compro uns bifes
de alcatra, corto
tempero com alho e sal
e bato neles
com a delicadeza
que a situação pode
suportar
ele corta tomates, eu brócolis
que ele junta com o arroz
temperados com alho
e sal
as cebolas, que eu cortei
ele refoga com os bifes
com azeite e manteiga

chamamos os meninos

há mais de uma década
viemos alimentando
essas outras pessoas
com diligência, e o amor
que podemos
dar




29.8.17

look at all
the lonely people
f. canta
ele não entende
mas parece
que entende

26.8.17

ele põe a mão
gelada sobre a minha
está tudo escuro
não sei que horas são
sinto a mão gelada
sobre a minha mão
quente e não sei se é
amor ou só frio
mesmo

17.8.17

bonde la paz

com marcelino, andré e dennis
e com os "judíos" de t.k.

queremos ir ao museu de etnografia
o dia da independência é amanhã
mas nada de museu por hoje
apertados no taxi rimos e aceitamos
la paz vai nos testando com discrição
reservada e resistente
nós queremos ir mais alto
e o teleférico não é longe daqui
dizemos em uníssono
nem subimos e já somos parte
de um poema que não é este
algo nesta altura nos deixa tontos
é nossa trilha sonora inaudível
porque as vozes que nos cobrem
já quase tocando o céu com a mão
são de remédios contra os males
da alma e do corpo
para você que sofre do intestino
dos olhos do fígado do pescoço
do calcanhar da bacia do rim
que não sabe onde esqueceu os óculos
até aqui chegamos
um de nós diz entre peças automotoras
llamas turísticas tênis falsificados
tecidos multicores peixe frito
seguimos mais uns passos
tentados a comprar o improvável
testamos a paciência um do outro
respiramos devagar porque é pouco o ar
e muito o esforço para estar aqui
diferentes às custas do mesmo
somos bolivianos e não somos
um pernambucano uma portenha do rio
dois paulistas um de guarulhos
um de nós guia os outros
de volta à estação da linha vermelha
mas tem mais
rimos na subida e rimos de novo
do cemitério imenso sob os bondes
e rimos mesmo é da emoção
rimos e calamos no sobrevoo
da cidade que nos tira o fôlego
perguntamos em silêncio sabendo
a resposta que a partir de agora nos une
você ficaria?



31.7.17

estoy triste
porque murió 
jeanne moreau

24.7.17

auto

a exposição se chama
"autophotos"
eles tinham entendido
que seriam fotos
de carros
eu não

19.7.17

fábula

era uma vez um menino 
que achou uma moeda de 20 centavos 
numa máquina de lanches no metrô. 
já no trem, o menino girava sua moeda entre os dedos, 
quando entrou uma mulher, 
que pediu desculpas por atrapalhar sua viagem 
e contou que há dias não fazia uma refeição. 
o menino duvidou e perguntou pra mãe 
se deveria dar a moeda à mulher, 
mas a mãe duvidou também, 
enquanto a mulher se afastava 
para tentar melhor sorte num outro vagão.
chegando na sua estação, 
desceram e foram em direção à saída, 
o menino sempre girando e girando a moeda, 
até que ela escapuliu e saiu correndo pelos trilhos. 
olhando a moeda ir embora, 
ele perguntou desconcertado pra mãe
se a mulher seria capaz de encontrá-la.


11.7.17

"tenho por princípio
nunca fechar portas
mas como
mantê-las abertas
o tempo todo
se em certos dias
o vento quer
derrubar tudo"

28.6.17

prainha paulista


às vezes quando acordo
no meio da noite
ouço um barulho de onda
demoro pra entender
que é um caminhão
subindo pela joaquim
em direção à paulista 








26.6.17

- você sabe
que a gente
é o sonho
de alguém?
- é impossível
ter certeza.

13.6.17

e eu será que quero 
voltar a ser criança
deixando que os piolhos 
invadam minha cabeça?

11.6.17

durante anos 
a. brincou
com colheres de pau
se eu precisasse de uma
sabia onde encontrá-la 
leio freud que diz:
"nada é tão difícil quanto renunciar 
a um prazer que se conheceu
um dia"
um dia a. abandonou 
as colheres de pau
talvez por vergonha
talvez por desinteresse 
há algum tempo 
ele se tranca 
no quarto
do outro lado da parede
ouço os sons que fazem 
caindo no chão
sacudidos no ar
os restos de brinquedos
que ele pega 
emprestados de f.
para continuar sendo
uma criança 

30.5.17

"você estava sentada no sofá
com ar de derrota
quando me aproximei
e sussurrei em seu ouvido:
não faz mal"

(a chave de casa, tatiana salem levy)

24.5.17

vejo o mar do avião
penso que se ao vir ao rio
ao invés de ir à análise
fosse dar um mergulho
eu seria outra

17.5.17

e f. que diz:
meu banheiro devia
ser esse aqui
"fe-menino"

12.5.17

com d. p. 

antes eram os avós 
que morriam
não os pais
hoje o pai de uma amiga
morreu
eu tinha imaginado
como seria quando
isso acontecesse
o velório, o enterro
ela me mandou 
uma mensagem
eu tinha que levar f.
na natação
pensei em dizer 
que não ia dar
aí lembrei de um amigo
dizendo que eu sempre
estou em outro lugar
ou fui eu quem disse
que eu sempre estou
em outro lugar 
abracei a minha amiga
o caixão era preto
estava fechado
como diz a tradição 
vi o filho dela
com sua namorada
para eles ainda são
os avós que morrem
não os pais 
lembrei que um dia
eu fui ao velório do avô 
de um namorado
que achei tudo chato
e demorado
as pessoas iam e vinham
uma mulher me perguntou 
se eu já estava de partida
eu disse que não
que ia ficar ali
um pouco mais
com a minha amiga

10.5.17

explicação

"o xadrez tem isso
às vezes um jogo
já está ganho
na teoria
mas é preciso
ganhar esse jogo
na prática,
entende?"

24.4.17

ipanema

f. entra no banho
eu deito na cama
bebi um saquê
no japonês 
aqui pertinho
já quase sonhando
ouço do quarto
como ele canta
grito pra ele
não esquecer
o pente fino
e o shampoo
contra piolho
já quase sonhando 
ouço como canta
garota de ipanema 
ele canta
ele assobia
eu fecho os olhos
me vem a calçada
quente e suja
da vinícius de moraes
meus pés descalços
a praia logo ali
tão longe de nós
e tão pertinho