15.11.18

você me conta que está lendo
drieu la rochelle
drieu de la rochelle
repito
você me diz
que é sem o "de"
pergunto por que
você diz que não se lembra
por que chegou a ele
eu me lembro vagamente
de quem ele é
quando chego em casa
procuro no google
vejo que ele se chama
pierre
e que foi um colaboracionista
durante a invasão alemã
lembro que foi amigo
do nosso aragon
o poeta comunista
que nos uniu
por alguns meses
aragon rompeu com drieu
como era de se esperar

8.11.18

comprei uma samambaia nova
e dei a ela o nome de matilde

29.10.18

a samambaia morreu
ela me lembrava os anos 80
que foi quando a gente se conheceu
que foi quando a ditadura acabou
tudo vira símbolo
ou alegoria
sinal dos tempos

12.10.18

aparente

de repente
ou nada de repente
com a brutalidade
do que ao aparecer
já estava lá
de repente
blasers pretos
e botas pretas
e cinto e calças
mais apertadas
de repente uma ordem
uma limpeza
só aparente
de repente
me alegram
piolhos
que a. prefira
a mochila rasgada
os chinelos desbotados
que não combine
nada com nada
que não esteja nem aí
para a aparência
porque p.
de repente
ou nada de repente
resolveu
aparentar

10.10.18

não tenho sonhado
mais

29.9.18

prioridade

enquanto espero
minha vez de falar
na mesa redonda
faço exercícios
para o períneo

24.9.18

os sonhos que são para ela
eu faço
os meus
eu tenho

18.9.18

dominique

agora os sonhos se dividem
entre os que são para mim
e os que são para ela

12.9.18

sua cartada final
continua sendo:
você está mal
informada

2.9.18

para pizarnik

depois de dias te lendo
sonhei com a minha mãe
a extrair da minha coxa
um pássaro morto

15.8.18

nao consigo me separar
do livro da chantal thomas
então o trouxe pra dormir comigo

ainda bem que não fiz o mesmo
com p.



12.8.18

a. adquiriu o hábito
de mandar mensagens
de whatsapp
para sua pediatra
ela me conta que
ele diz coisas como
“arder o pulmão”
“dor perto do coração”
e sugere que eu
deveria guardá-las

3.8.18

p. me conta que voltou
a estudar grego antigo
fico dias pensando sobre
o que isso significa 
há muitos anos, lá atrás
lá no início 
fizemos isso juntos
antes mesmo do início
na nossa pré-história 
estudávamos grego
com um manual escrito 
em alemão gótico
depois frequentamos
um grupo de estudo
num casarão em ruínas
em santa teresa
tudo isso nos divertia
e nos unia
ele então agora
voltou sozinho 
a estudar grego antigo
não fui a única que 
achou isso significativo
por telefone ele
me confessa:
“achei que você fosse
ficar com inveja”

27.7.18

escritos geográficos

artigos, entrevistas 
projetos e textos publicados
em jornais, revistas, livros e internet 
do prof. claudio ferreira terezo
geógrafo, autor
do novo dicionário de geografia
consultor ambiental do site terra
e colaborador da revista geografia
essencial para estudantes
e professores de geografia 
e ciências afins

22.7.18

na praia

minhas amigas são minha praia
elas são borda, são espuma 
são mar
meu mar
minhas amigas são o mar
que se recolhe e volta com tudo
são os restos que traz
a maré baixa
são o segredo do mar
e a falação da areia
são a alegria da onda
saltada a tempo
são o tempo da arrebentação
minhas amigas são
minha praia
nelas eu quero 
morar


1.7.18

tu abuela


arreglando mis cosas encontré
un pequeño cartoncito en el cual
escribías a tu abuela del amor
que sentías por ella
del susto que te dió
porque había estado enferma
muy amorosa
muy delicada
emociona

27.6.18

frustração

em 1988
eu tinha a idade 
que a. tem agora
meu pai decidiu me levar 
a salvador onde até hoje 
vai a trabalho
fomos até o galeão
mas não embarcamos
por causa de uma greve
quando a companhia aérea
ofereceu hospedagem àqueles
que não moravam no rio
meu pai prontamente
me explicou que a partir
de então esse era 
o nosso caso
talvez ele tenha começado
a falar comigo na frente
de todos em espanhol
ou talvez seu sotaque
tenha bastado
para compor a cena
tomamos um ônibus
para o hotel othon
na avenida atlântica
tudo era divertido demais
para parecer errado
e afinal de contas
minha frustração merecia
ser compensada de algum modo
teríamos duas diárias
de frente pro mar
no dia seguinte
meu pai me deixou
em casa e levou
minha mãe pra dormir
com ele

31.5.18

o amiguinho provoca:
- você já viu dois meninos se beijando?
f: já, isso se chama gay
o amiguinho insiste:
- você ia gostar que um menino beijasse sua boca?
f: ah, sei lá, se eu quisesse ser gay, pode ser


26.5.18

venho descendo a abilio soares
pensando nas perdas e ganhos
deste dia até agora
venho no meu ritmo
meio acelerado
meio distraído
vejo um menino ao longe
eu conheço esse menino
de algum lugar
penso que quando ele chegar perto
vou dizer a ele
eu conheço esse menino de algum lugar
ele vem no seu ritmo
bem devagar
arrastando os pés 
eu conheço esse ritmo
esse jeito de andar olhando pra baixo
com as costas um pouco curvadas
contrariando barthes
há uma década eu venho
puxando esse menino por aí 
sou sua mãe, sim, sou sua mãe
ele vem de sapatos desamarrados
de óculos meio tortos
aperto o passo na direção dele
sorrio e digo que eu
conheço esse menino de
algum lugar

24.5.18

pergunta

ligo para o meu pai
para perguntar se ele tem ideia
do que pode ser uma espécie
de baba branca que apareceu
em uma das minhas plantas
ele acha que pode ser água demais
mas pode ser também fungo
ou as duas coisas
concordo e não sei como
mudar de assunto
porque eu queria mesmo
era continuar uma conversa
de um outro dia
quando perguntei com o
descaramento destes novos tempos
se era mesmo preciso partir
a pergunta veio assim mesmo
descarada, descarnada
sem tempo e espaço
mas ele soube perfeitamente
do que eu estava falando
ou não tão perfeitamente
porque da minha desconfiança
e das histórias mal contadas
aludidas por d. ele nem desconfia
ele me olhou e riu querendo dizer
talvez que o passado é o que foi
ou talvez o contrário que ele é
o que já fizemos dele e então
como fazê-lo falar daquela dor
ou de alguma outra coisa
que não se define tão bem
entre a liberdade e o medo
como perguntar
sem saber a resposta

22.5.18

meus filhos me acham
parecida com a mable
do gravity falls
ela é uma baixinha
bem animada
meio chatinha
bastante ingênua
que grita coisas do tipo
todas as ideias são boas!

14.5.18

aventura

abri na “mesa”
uma pasta “meus pais”
coloquei ali o “questionário”
que eles nunca responderam
e uma “linha do tempo”
ainda vazia
isso depois de quase perder
minha certidão de nascimento
recém trazida de buenos aires
isso depois que d. me dissesse
que havia histórias demais
muito mal contadas
e me fizesse entrar
por uma porta
e sair por outra
e me perguntasse
se eu estava disposta
a começar
esta aventura

28.4.18

tempão

quando pergunto a mim mesma
diante do espelho
numa língua estrangeira
que eu falo meio mal
sabe como é, né?
isso de virar personagem
de si mesma
então
quando pergunto
a mim mesma
que roupas são essas
que tenho usado ultimamente
meio anos 80
cintura alta
saltinho com calça
será que é porque
peguei as roupas
que minha irmã
deixou pra trás quando viajou
ou será influência de j.
que usa umas roupas diferentonas
e que eu acho lindas
ou de s.
que parece uma menina
saída de outra década
quando pergunto a mim mesma
diante do espelho
e dou uma risada
me vem o pensamento
que a dificuldade de
voltar a estar com uma pessoa
não é tanto pela dor recente
da separação
mas porque estou sozinha
há um tempão



22.4.18

no cuentan las cierras?
minha mãe diante
de minha recaída
no caos econômico

2.4.18

re-vi-ver

com j.

"reviver" é um verbo
intransitivo e transitivo
direto e indireto
revivo
revivo a.
revivo f.
revivo com j.
revivo:
o olhar perdido que de repente
me encontra e vê
me vê
"ver" é um verbo
transitivo e intransitivo
ele nasce
ele vê
o quê?
seu olhar perdido
de repente me vê
esse ser mínimo
de repente me vê
e eu revivo

29.3.18

recaída

nos últimos dias voltei às listas
listas ingênuas
de livros pra ler
compras a fazer
nada como as velhas listas
metódicas
abrangentes
um amigo me diz que tudo bem
que eu posso me permitir
essa demonstração
de ansiedade
outro me diz
mudando de assunto
que as coisas estão
mesmo
muito tristes
embora eu não tenha falado
de tristeza
mas de listas
e a essa altura
já estamos falando de outra coisa
a criança morta
a vereadora morta
o amigo morto
fazemos listas
recaímos juntos
até que mudamos de assunto
e ele diz uma coisa gentil
e me manda um coração
que pulsa
na mensagem de whatsapp


19.3.18

os dias

não falar de marielle
não falar do victor

falar do victor
falar de marielle

12.3.18

com v.h.

desde que soube
da morte dele
fiquei com um afã
de saber
comecei a falar
com as flores
com os bichos
perguntei para o gato
abracei meus meninos
querendo saber
porque eu soube
sem realmente
saber

o mistério cresceu

comecei a falar
com os mortos
com meus avós
com os avós dos outros
com os pais das minhas amigas
que são meus mortos
conhecidos

falei também
com alguns mortos
alheios

de noite eu mesma
me fingi de morta
como sempre
mas agora
querendo saber

fiquei com esse afã
de saber
de resolver o mistério
de entender o universo
de falar com os peixes
com as samambaias
com as estrelas

também falo com você
continuo uma conversa
incompleta
sussurro pra você
minha teoria
dos "momentos felizes"
e te pergunto por que será
que as orquídeas
gostam tanto do ar
poluído de são paulo

continuo sem saber






17.2.18



troquei sua foto
do porta-retrato
por um papel
vermelho
até agora
tudo bem




9.2.18

nunca fomos tão
felizes
sou levada a essa frase
que também conta com
uma boa disposição
da língua
nunca fomos tão felizes
você já se perguntou
o que isso quer dizer?
é nosso segredo
eu sei
nosso calcanhar de aquiles
nossa invenção da pólvora
da roda
nunca fomos
tão
felizes
não vou revelar nada
aqui
não vou entregar
nosso ouro
nossa fonte
mas essa frase nos
contém
nos abraça
tão forte que chega
a doer

7.2.18

quero sair
desta mudança
e entrar num
livro

2.2.18

tenho medo de matar
as plantas
construí pra elas um pequeno deck
do lado da janela
mas talvez o sol 
não seja suficiente aqui
explico pra elas que a palavra
“mudança”
em português
tem um sentido duplo
concreto e metafórico 
que roland barthes diria
que isso é uma sorte
uma “boa disposição”
essa mesma que nós
elas e eu
devemos ter 
os meninos sobreviverão 
o gato sobreviverá 
mas elas
elas precisam me ajudar

25.1.18

caravana

tudo é meio
lugar-comum
não ouvir mais
chico buarque
ou chorar ouvindo
ou pensar que ele
nos representa
porque fala de amor
e de política

tudo é meio
lugar-comum
então também
acho graça
me sentindo
um pouco vingada
quando os meninos
entoam "sol, a culpa
deve ser do sol"

22.1.18

fim de festa

f. não se conforma que
a festa acabou
as pessoas não deveriam
ir embora
elas poderiam até sair
viajar
fazer outras coisas
mas elas deveriam voltar
as festas deveriam ser
infinitas

30.12.17

réveillon

terminar o ano
catando piolhos
meu irmão diz que são
coisa de gente suja
meus meninos não são
sujos demais
também não são
dos mais limpos
os piolhos gostam mais de a.
e é em sua cabeleira que invisto
as energias que sobraram
deste 2017
que me custa adjetivar
talvez por falta de coragem
digo "confuso"
digo "difícil"
digo "duro"
digo "longo"
terminar o ano
catando piolhos
que não estão
nem aí
para o meu calendário

22.12.17

no rio

ontem
depois de meses
sem terrores noturnos
acordei meus pais
aos berros
perguntando
se eles tinham
certeza
de que eu estava
viva

12.12.17

12 anos

às vezes
agora
quando falo
algo para a.
tenho a sensação
de que vai ficar

ele me escuta
em silêncio
sentado no banco
do carona
e eu ouço
as palavras
saindo
da minha boca
coloco a mão
sobre a dele
e vamos assim
por um tempo
outras vezes
as palavras
saem
mais soltas
pergunto se ele
já tomou banho
fez a lição
escovou os dentes
ele responde
“talvez”
e eu digo
que “talvez”
não é resposta
ele acha engraçado
e diz que é
resposta
sim

10.12.17

fim de semestre

pergunto pra ela
aonde vai com sua mala
depois da aula
e ela me responde
o que eu já sabia:
"pra casa"




2.12.17

este corpo não é meu

(parte 3)

a professora
de anti-ginástica
usa a palavra
xoxota

25.11.17

posso comparar o amor
a um concerto a 4 mãos
que assisti
sem você?

posso comparar o amor
àquelas mãos
tocando shubert
se aproximando
se distanciando
mais rápido, mais lento
as mãos e os troncos
se desviando, pra frente
e pra trás, no mesmo ritmo
mas desencontrados?

posso comparar o amor
a um concerto a 4 mãos
sem falar
de você?

posso comparar o amor
às mãos, pequenas, dela
e alongadas, dele
à gentileza com que ele
espera que ela se sente
e ajeite sua saia de crepe
e levante de novo
e se ajeite mais uma vez
até estar pronta
e sorrir?

posso comparar o amor
à violência com que
ela e ele, alternados
passam as páginas
da partitura
quando a música
já parece andar
sozinha
mais forte
do que eles?

não estou te pedindo
permissão, entende?
eu só estou querendo saber
se eu posso
se sem você
eu posso



10.11.17

este corpo não é meu

(parte 2)

será que você consegue
fazer com que seus dedos
toquem o céu?
será que você consegue
respirar tão profundo
que seus pulmões
colem no chão?
será que você consegue
virar seus joelhos
para que olhem
pela janela?
a professora de anti-ginática
insiste em consultar
a memória dos músculos
eles se fazem de
desentendidos

5.11.17

eles

eles se divertem
dizendo que minhas
viagens são tipo
a fase bônus
do super mario

25.10.17

"vamos colocar isso 
em termos de natação.
é como se na vida eu estivesse 
nadando, nadando, nadando 
enfrentando ondas muito altas
a piscina me salva 
de muitas situações opressoras
tem situações que são 
enlouquecedoras
se a gente sabe nadar 
é só nadar 200, 300 metros 
que aí já não sente mais nada 
não fica triste, não precisa chorar 
é como se tivesse lavado 
o cérebro por dentro"

(nora ronai)

23.10.17

este corpo não é meu

(parte 1)

a.
suas palavras
saiam calmas
mas as pernas
iam rápidas
como um desenho
animado

b.
deixa sua
sobrancelha
descansar
por um
segundo

c.
você parecia
aquela menininha
do “poltergeist”
só que ao
contrário

d.
não aperta
minha mão assim,
mãe

15.10.17

achei que o gato
também estivesse
deprimido
ele passou o dia
todo encolhido
do meu lado
na cama
de noite
me ocorreu
brincar com ele
com a cartela
metálica e colorida
de naldecon
ele ficou
visivelmente
interessado



4.10.17

vocabulário

f. que diz:
este boneco
é mais
realista

28.9.17

tenho gostado de
ir ao cinema sozinha
e de comprar coisas 
pela internet
e de ouvir monólogos
de whatsapp 
uma amiga falou de um
"um movimento sóbrio
sem proteger a pele 
com armadura"
pode ser

11.9.17

anotações


ela me mostra 
o livro de uma amiga
assinado 09-03-70
a amiga já morreu
eu finjo
desinteresse
o livro está todo
anotado
e sublinhado 
com tinta vermelha
e azul 
ela está escrevendo 
sobre autismo
ela me mostra 
o livro 
da amiga que eu 
não conheci
que ela guardou
anotado e sublinhado
para se lembrar
47 anos
depois

(dois dias antes 
quando ela
pede uma caneta
eu vejo o gesto
o livro na mão
a caneta destampada
e quase grito
o livro é meu
ela me olha
e tampa a caneta
calada)


7.9.17

minha amiga toca a real
o apartamento é bonito
pra você
eu fico irritada e digo
mas escuta
e mais nada
porque começo a pensar
na pré-história 
e em como explicar 
pra corretora 
que não é tão 
simples
quantos metros
quantos quartos
quantas vagas na garagem
e o prédio?
tem segurança
24 horas?
e as vagas?
são fixas?
e o preço do condomínio?
que existe uma pré-história 
que eu te perguntei
pra decidir se comprar ou não
te perguntei se você achava
que a gente ia ser feliz aqui
você não respondeu

5.9.17

sabedoria

eu não ligo
muito para o
passado, mãe

1.9.17

compro uns bifes
de alcatra, corto
tempero com alho e sal
e bato neles
com a delicadeza
que a situação pode
suportar
ele corta tomates, eu brócolis
que ele junta com o arroz
temperados com alho
e sal
as cebolas, que eu cortei
ele refoga com os bifes
com azeite e manteiga

chamamos os meninos

há mais de uma década
viemos alimentando
essas outras pessoas
com diligência, e o amor
que podemos
dar




29.8.17

look at all
the lonely people
f. canta
ele não entende
mas parece
que entende

26.8.17

ele põe a mão
gelada sobre a minha
está tudo escuro
não sei que horas são
sinto a mão gelada
sobre a minha mão
quente e não sei se é
amor ou só frio
mesmo

17.8.17

bonde la paz

com marcelino, andré e dennis
e com os "judíos" de t.k.

queremos ir ao museu de etnografia
o dia da independência é amanhã
mas nada de museu por hoje
apertados no taxi rimos e aceitamos
la paz vai nos testando com discrição
reservada e resistente
nós queremos ir mais alto
e o teleférico não é longe daqui
dizemos em uníssono
nem subimos e já somos parte
de um poema que não é este
algo nesta altura nos deixa tontos
é nossa trilha sonora inaudível
porque as vozes que nos cobrem
já quase tocando o céu com a mão
são de remédios contra os males
da alma e do corpo
para você que sofre do intestino
dos olhos do fígado do pescoço
do calcanhar da bacia do rim
que não sabe onde esqueceu os óculos
até aqui chegamos
um de nós diz entre peças automotoras
llamas turísticas tênis falsificados
tecidos multicores peixe frito
seguimos mais uns passos
tentados a comprar o improvável
testamos a paciência um do outro
respiramos devagar porque é pouco o ar
e muito o esforço para estar aqui
diferentes às custas do mesmo
somos bolivianos e não somos
um pernambucano uma portenha do rio
dois paulistas um de guarulhos
um de nós guia os outros
de volta à estação da linha vermelha
mas tem mais
rimos na subida e rimos de novo
do cemitério imenso sob os bondes
e rimos mesmo é da emoção
rimos e calamos no sobrevoo
da cidade que nos tira o fôlego
perguntamos em silêncio sabendo
a resposta que a partir de agora nos une
você ficaria?