lugares onde não estou
29.2.12
Vamos al súper.
Y después a la farmacia.
Y después a la farmacia.
No me imites.
No me imites.
Só depois de censurá-lo percebo que ele acabou de dizer
suas primeiras palavras na outra língua.
15.2.12
9.2.12
por C.L.
Nesta densa selva de palavras que envolvem espessamente o que sinto e penso e vivo e transforma tudo o que sou em alguma coisa minha que no entanto fica inteiramente fora de mim.6.2.12
me senti muito contente de tarde, como se a cidade estivesse me presenteando.
mais tarde adoeci, certamente pela mudança de temperatura.
acabei de fazer um chá e vou me deitar.
lerei o di benedetto que você me deu.
30.1.12
25.1.12
4.1.12
noche buena
a. quer de novo aquela brincadeira de cuidar das coisas,e insiste nisso como encargo precoce
ao qual respondo com um "que bom".
porque enquanto isso f. me enfeita
com seus pequenos presentes:
um resto de banana, a meia que tirou do pé.
eu fico ali, quieta, muito natalina,
expectadora dessas oferendas.
25.11.11
ante a outra língua, veloz, vocálica, sua linguagem acelera
- os sons saem como peixes escorregadios.
e ele começa a falar sua própria língua estrangeira.
19.11.11
e para mim o retorno é aqui.
mas se releio a mensagem,
vejo que eu também posso voltar
para o lugar dele.
(é como estar olhando
as coisas do outro lado.)
e imaginar um passeio de carro à beira do rio barrento, num dia úmido de fevereiro em que a cidade resgatará seus ares de porto abandonado.
30.10.11
7.10.11
colectivo
"tenho muito medo das coisas inacabadas".não é ela quem diz isso.
ela diz:
"tenho que retomar minha vida".
quando o ônibus parte, observo e aceno, mas ela não me vê.
a cabeça no vidro, o trajeto a leva:
rebouças, pacaembu, santa cecília, rosario, mar del plata,
quem sabe, "uma folha ao vento", ela diz.
e tudo isso é dito em outra língua.
nessa língua os projetos ficam suspensos,
as casas desaparecerem, as pessoas viajam como se fosse um destino.
nessa língua eu sou ela e o que ela diz é uma verdade impossível.
21.9.11
Puede ser. Me gusta trabajar despacio, como una arañita. Y corrijo mucho. Una vez que termino un capítulo o una página, vuelvo al principio y reescribo: rompo la frase que está demasiado redonda, o que suena demasiado “literaria”, tomo un desvío... Me parece que en el fondo son todas cosas sin la menor importancia, pero es así. Escribo mucho “adentro” de lo que escribo. Siempre me acuerdo de la imagen de Nabokov: “Me encanta la página del texto corregido, cuando le crecen alitas azules en los costados, sobre los márgenes”. Mi sensación es la de no tener nunca una frase completa en la cabeza, ni siquiera una frase breve, sino que la voy armando palabra a palabra, siguiendo un ritmo, y casi nunca un sentido. Las frases que más me gustan no tienen ningún sentido.
(entrevista com S. Bizzio)
13.9.11
4.9.11
na minha boca
tiro-o de perto da tomada,ele diz várias coisas incompreensíveis e eu finjo que não entendo.
"não pode", eu repito.
tenta de novo e de novo eu o afasto.
"não pode", insistente.
então ele chora e vem a chupeta.
de quem é a tenacidade?
ele chora ainda.
digo: "vem para o colo".
e ele vem e não chorar mais e fala de novo coisas incompreensíveis.
então se detém e observa.
(nesses momentos eu sei que somos dois)
tira a chupeta e põe na minha boca.
1.9.11
ele insiste: "assim haverá um pouco de você".
a frase passa rápida. eu a deixo passar, rápida, colada na seguinte.
ela não vai voltar, nem mesmo um resto dela, dessa imagem de mim, em outro lugar onde eu não estou. não vai voltar, e então só me resta pedir que ele faça o relato, curto que seja, rápido até, em que a frase me fará existir, quem sabe, ali onde eu não estou.
2.8.11
à intempérie
le petit cheval dans le mauvais temps,ele me olha, com fascínio.
mas não sou eu o que interessa.
qu'il avait tant de courage.
seus dedos abrem a minha boca
e eu continuo a cantar,
c'était un petit cheval blanc
porque é isso o que ele quer:
ver as palavras saindo
como pequenos cavalos brancos,
tous derrière et lui devant.
1.7.11
eu não seria nada se não escrevesse. No entanto, estou em outra parte, que não é aquela em que escrevo.
24.6.11
na piscina
tudo muito simples.trocamos uma correspondência breve
que eu guardo
numa caixa virtual.
ele escreve:
"hoje fui à piscina".
e com isso me resgata
como um protetor de ouvidos transparente
perdido entre fios de cabelo
e outros restos.
continuo lendo.
sei que alguma hora o relato me encontrará.
ele escreve:
"nadando me lembrei de você".
e a simplicidade salva o meu dia.
14.6.11
agora é a lembrança que não me deixa dormir.
ou será o contrário?
nessas horas fico pensando
que preciso ser mãe de novo.
mãe eterna,
parindo mil vezes
para quem sabe finalmente
entender alguma coisa.
14.5.11
avenida paulista
a cidade não me protege, mas tudo bem.são eles que me servem de amparo.
quando a gente sobe a ladeira que vai dar na paulista, a. se apóia no carrinho de f., enquanto eu aperto bem a sua mão.
às vezes, ele diz: "mãe, solta um pouco".
eu então o libero e ele anda sozinho até o sinal, que ele chama de "farol".
28.4.11
verão
ela disse:"como ele pode falar assim de si mesmo".
até aí estávamos conversando sobre literatura.
mas pensei:
"como ele pode falar tão perfeitamente de homens assim".
homens que não fazem planos, não têm ambições, só têm vagos desejos.
14.4.11
"deu isso no exame. estou fazendo outros. vou começar o tratamento".
e eu nesse dia tinha revivido nosso fantasma e antecipado o drama de uma consulta,
como uma sombra que dispõe a tempestade.
fiquei sem saber se admirá-la.
continuamos a conversa e eu contei alguns detalhes, para ser também natural.
"mas ele ficou bem", ela disse.
não era uma pergunta nem uma certeza.
no meu relato, ela queria uma confirmação ou um alento.
fiquei sem saber.
31.3.11
no quarto ao lado
eles conversam do outro lado da parede.me interesso porque falam do passado.
"eu tinha 7 anos quando eles se separaram".
a. fica em silêncio.
"era bom ter duas casas".
"era?", pergunta.
18.2.11
minhas amigas judias discordam de mim. torta de maçã com sorvete? não, combina mais com roquefort. nada de simetrias. nem medidas justas. nem boas maneiras.
minhas amigas judias discordam de quase tudo: um belo dom; um amor às avessas.
elas pressentem catástrofes que talvez nunca cheguem. ou talvez sim. são bruxas. dizem: "me sinto estranha".
não sei de onde elas vêm. imagino desertos, campos perdidos, casas cheias de bibelôs.
minhas amigas judias não me levam a sério. não sei o que fazer com elas. não sei o que falar. então solto uma risada teatral e finjo entender.
14.2.11
no futuro
ela tem razão:de certos ângulos ele parece mais velho.
a transformação se dá quando ele adormece.
seu perfil é o de uma criança, que será ele.
é possível ver o futuro no seu rosto.
30.1.11
bereber
no meu sonho não há praia nem chuva, mas um espaço vazio que é um antigo restaurante.é o nosso lugar.
não é mais.
as caixas de papelão tomaram conta de tudo.
"nenhum lugar jamais nos pertence".
quem fala é outro, mas é minha a dor .
23.1.11
6.12.10
barricada
antes de me deitar, um ritual:as almofadas na vertical, paralelas ao corpo, encolhido no canto oposto ao lado em que se encontra o seu berço.
o berço, por sua vez, bem colado à parede.
um banquinho, uma cadeira e o ventilador deveriam também bloquear minha passagem.
tudo isso para impedir que no sobressalto noturno eu chegue até ele e o levante.
assim procuro proteger o bebê dos meus terrores noturnos que agora o têm como alvo.
de dia, o pavor do ato impensado:
uma curva apressada e um ônibus perto demais, na nossa direção.
o carinho que desliza sozinho, vazio, por sorte.
a cabeça passando muito próxima da parede quando o seguro no colo.
3.12.10
são paulo
conversamos. faço rodeios. ela muda de assunto, desinteressada. acha tudo uma futilidade.a pergunta que me atormenta não sai: você acha que vou ser feliz nessa casa?
17.11.10
sob as rodas
ao atravessar a avenida tive que me desviar de um bicho morto. já não é fácil empreender essa travessia sem ajuda. quatro pistas devem ser transpostas em 30 segundos, como marcam os números verdes piscando à frente. um desvio significa mais um risco que eu não tinha não calculado. o animal era uma ratazana esmagada por algum automóvel. seu corpo ficou estampado no asfalto como se nunca tivesse existido. como uma gravura. é provável que ninguém sequer se dê o trabalho de tirá-lo dali, já que mais dia menos dia acabará se desintegrando sob as rodas. não consigo deixar de pensar que eu também posso eventualmente cometer um erro de cálculo e findar ali, no meio de um pensamento.9.11.10
1.11.10
da janela
os prédios de moema, ao fundo, muito mais bonitos de longe. um óbvio avião para congonhas. a brigadeiro quase vazia pelo feriado. a língua vermelha do niemeyer num prédio do ibirapuera. o verde em volta, como uma promessa que não se cumpre. bem perto: um heliporto que o a. às vezes transforma em espetáculo.(tudo isso porque o f. só quer colo em pé e a melhor opção é o pôr-do-sol da janela.)
20.3.07
quadra
tudo está longe.do outro lado dos prédios, há carros que ainda circulam entre as quadras.
do outro lado dos outros prédios, atravessando uma área verde, há um supermercado 24 horas, ponto de encontro, refúgio, a essa hora talvez vigiado por uma patrulhinha, que impede o som alto nos carros.
aqui em baixo, na pracinha, havia meninos que se encontravam e então se ouviam algumas risadas e fragmentos de conversa, mas o prefeito da quadra os expulsou dizendo que aqui não é lugar de safadeza.
16.2.07
cinema novo
é sábado. vão os três, ela, ele e o menino, assistir a uma sessão de curtas-metragens de joaquim pedro de andrade. o primeiro é sobre o cinema novo. no início, a. se interessa pela grande tela e os movimentos em preto e branco, mas logo se inquieta. decidem então se alternarem: ele assiste ao primeiro e ao segundo, sobre gilberto freyre, ela aos dois últimos, sobre manuel bandeira e sobre brasília. a sessão acaba com aplausos à verdade de um filme que acena com a possibilidade de “ver no rosto do povo como uma cidade pode ser bela”.22.1.07
do avião
ela abre a janela e lá está a cidade onde agora vai morar. identifica a ponte jk atravessando o lago. o dia está lindo. procura o desenho do avião e não demora a achá-lo, do jeito que vira nos livros. lá está o eixo monumental, com seus prédios simétricos, de um lado e do outro do espaço verde. no fundo, o palácio do planalto. são imagens mais do que conhecidas e, ao mesmo tempo, impressiona-lhe que a cidade de fato exista, que esse projeto mirabolante tenha sido mesmo levado a cabo. identifica as duas asas e o eixo estrutural. o desenho se afasta. o piloto anuncia que em alguns instante pousarão no aeroporto de brasília.7.1.07
londres
de bicicletaa primeira coisa que faz ao chegar é conseguir um mapa e localizar a rua snowsfield na cidade. é uma pequena rua que sai da weston st. e fica a cinco minutos da london bridge. depois compra uma bicicleta. logo aprende que a chuva pode ser uma boa companhia, mas a cidade lhe parece imensa, fora do alcance de suas pedaladas. sente que mesmo morando ali muitos anos, permanecerá indecifrável. que ele e ela serão sempre dois estrangeiros, bastante solitários, quase invisíveis ao olhar indiferente dos ingleses.
31.10.06
brasília
com antonioquando, há alguns meses, uma amiga me disse do seu filho de um ano que ele era um grande companheiro, achei bonito mas improvável. companheiro? havia muita imcomunicação entre mim e esse outro ser que surgira na minha vida. ainda há e, imagino, sei, haverá sempre, mas, puxa, quanta companhia, quanto carinho, puro afeto, e também olhares de compreensão, de conhecimento mesmo, que demolem meu ceticismo. não sei o que seria de mim, aqui, sem ele.
22.10.06
road tale
o que estou fazendo aqui? ela se faz mais uma vez essa pergunta, que na verdade é uma forma de se transportar dali para o motivo de sua viagem, a mais de 8000 km ao sul. porque se perguntar isso é obrigar sua memória a refazer todo o percurso, de buenos aires a los angeles, em 2002, até chegar neste ponto da estrada entre el paso e san antonio, no final de 2004. um percurso muito mais afetivo do que geográfico, com despedidas dolorosas, projetos abandonados, objetos perdidos e uma sensação quase constante de desamparo. tinha vindo para os estados unidos não em busca do sonho americano, mas escapando do aniquilamento da possibilidade mesma do sonho, de qualquer sonho. a porta que se abriu primeiro foi a de um doutorado numa universidade americana e ela não duvidou em atravessá-la, deixando uma vida para trás, sem saber o que conseguiria recuperar dela no futuro. recuperaria alguma coisa além da capacidade de rememorar sem pena?20.10.06
brasília
segundo rancièrecomo intervir numa ordem espacial que coloca cada um no seu lugar? como não se encaixar comodamente na parte reservada a cada um no mapa urbano simétrico? como resistir à utopia de conciliação que pretende anular todos conflitos?
14.10.06
ciudad juárez
sentada em sua poltrona, está rendida pelo desânimo. deseja dormir o mais rápido possível. não tem coragem de conversar com ninguém. não sabe ou talvez tenha esquecido, ensimesmada como está, que el paso fica a poucos quilômetros de ciudad juárez. não lhe vem à lembrança, portanto, o vídeo que viu na ucla sobre as moças assassinadas nessa cidade na fronteira do méxico com os estados unidos. não sabe e não quer saber que a menina sentada a seu lado, grávida de quatro meses, saiu de lá à meia noite e meia e chegou a el paso às 2:15 da manhã e esperou, como ela, quase duas horas pelo ônibus que a levará de el paso a san antonio, onde uma tia a acolherá até que seu bebê venha ao mundo em solo americano e tenha direito, como ela também teve, porque sua mãe também fez essa viagem, a um green card.